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Depressão a Doença do Século

Hoje dia 10 de setembro é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a campanha acontece durante todo o ano. São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 01 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Mais de 90% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão.

Tristeza profunda, pensamentos negativos, baixa autoestima, culpa, estresse e alterações no sono são sinais de uma doença silenciosa e que merece ser encarada com mais atenção pela sociedade. 

Os brasileiros acreditam, de modo geral, ter maior conhecimento sobre a doença do século: a depressão. Mas na realidade, falta informação e muitos possuem uma concepção equivocada do problema e seus sintomas. A depressão deve ser levada a sério e não encarada com preconceito, carregando rótulos como: “frescura”, “uma fase que logo passa” ou, ainda, “doença de preguiçosos”.

Confira abaixo a entrevista com o Dr Felipe Batistela, Médico atuante na área de saúde mental, fala com nossa reportagem sobre depressão, doença considerada a doença do século.

Dr Felipe Batistela (CRM-PR 32465) 

Clínico geral Pós-graduado em Saúde Mental

1 – O que é depressão?

Depressão é um transtorno do humor em que o paciente deve apresentar humor deprimido e/ou anedonia (perca da capacidade em sentir prazer) por mais de duas semanas a ponto de trazer prejuízo visível no seu funcionamento, seja no aspecto familiar, social, intelectual ou laborativo. As estatísticas mostram que 20% da população mundial apresentam ao menos um quadro depressivo ao longo da vida.

2 – Quais os sintomas?

Os principais sintomas são o humor deprimido ( sentir-se muito triste a maior parte do tempo), anedonia (interesse diminuído ou perca de prazer para realizar atividades), sensação de inutilidade ou culpa excessiva, diminuição na concentração e na memória de curto prazo, fadiga ou perda de energia, distúrbios do sono (insônia ou sonolência diurna excessiva praticamente todos os dias), problemas psicomotores (agitação ou lentidão marcante nos movimentos), perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar ideias recorrentes de que a vida não faz sentido de morte ou de suicídio.

3 – As pessoas já nascem com depressão ou desenvolvem ao decorrer do tempo?

O transtorno depressivo chamado de multifatorial por estar relacionado a várias causas que podem ser divididas em genéticas e ambientais. Em mais de 80% dos casos, o paciente nasce com uma predisposição genética, uma fragilidade herdada para desenvolver um quadro depressivo ao longo da vida. Muito comum existir vários casos de depressão entre os familiares do paciente. No entanto, não como prever que mesmo com essa predisposição a pessoa ter a depressão na infância, na adolescência, na idade adulta, na velhice ou em nenhum momento durante sua vida. A manifestação do transtorno dependerá da epigenética Isto é, da influência do ambiente na ativação da predisposição genética para depressão. O transtorno depressivo aparecerá de acordo com o estresse gerado pelos traumas, vídeos, privações de sono, perdas, frustrações e algumas condições médicas Gerais ( doenças da tireóide, AVC, dor crônica, diabetes, doenças coronarianas, câncer)

4 – Existem tipos de depressão? Quais?

Sim. de acordo com a classificação que se usa É possível dividir a depressão em categorias. A mais utilizada é classificação internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde, famosa CDI-10, a qual leva em conta a quantidade e intensidade dos sintomas e Dividir o transtorno depressivo em: leve, moderado, grave sem sintomas psicóticos, grave com sintomas psicóticos e recorrentes.

5 – A depressão pode evoluir um caso mais grave?

Sim. Geralmente ela tem caráter progressivo, isto é, começa leve e aos poucos chega a grave com sintomas psicóticos, como delírios (sentir-se perseguido ou acreditar com convicção em história sem sentidos ou lógica) e alucinações (ver com detalhes imagens de pessoas e animais ouvir vozes criadas de forma automática pela mente da pessoa).

6 – Quais são as cidades com maior índice da doença?

Embora possa começar em qualquer idade, a maioria dos casos tem seu início entre os 20 e os 40 anos. O número de casos entre mulheres é o dobro dos homens. Não se sabe se as diferença é devida a pressão social, diferenças psicológicas ou ambas. A vulnerabilidade feminina é maior do período pós-parto: cerca de 15% das mulheres relatam sintomas de depressão nos seis meses que se seguem ao nascimento de um filho. A doença é recorrente. Os que já tiveram um episódio de depressão no passado correm 50% de risco de repetir. Se já ocorrem dois, a probabilidade de recidiva pode chegar a 90% e se tiverem sido três episódios a probabilidade de acontecer o quarto ultrapassa 90%.

7 – Crianças podem ter depressão?

Qualquer criança ou adolescente pode ficar triste, mas o que caracteriza os quadros depressivos nesta faixa etária são o estado persistentemente irritado, tristonho ou atormentado que compromete as relações familiares e mudanças rápidas no desempenho escolar. Antes da puberdade, o risco de apresentar depressão é o mesmo para meninos ou meninas. Mais tarde, ele se torna duas vezes maior no sexo feminino. A prevalência da enfermidade é alta dois pontos de pressão está presente em 1% das crianças e em 5% dos Adolescentes. Ter um dos pais com depressão aumenta de duas a quatro vezes o risco da criança.

8 – A doença afeta o sistema imunológico? Por quê?

Sim. O paciente com transtorno depressivo pode ter uma alteração no metabolismo do cortisol e no funcionamento das citocinas, hormônio relacionado a fatores inflamatórios e na defesa contra infecções. Isso pode levar à baixa imunidade e a fragilidade mediante infecções oportunista, como exemplo: gripes e resfriados.

9 – A fibromialgia pode estar relacionada à depressão?

Sim. A fibromialgia é um transtorno doloroso relacionado à depressão e/ou a insônia (sono não restaurador). Nela, o paciente senti uma dor difusa (espalhada) e pior em alguns pontos do corpo, não detectada pelos mais sofisticados exames e muitas vezes não melhora com analgésicos fortes e sim sim com o tratamento da insônia e da depressão.

10 – O envolvimento com drogas e bebidas alcoólicas pode estar relacionado à doença?

Sim. O envolvimento com cigarro, álcool e drogas ilícitas tanto pode desencadear um quadro depressivo devido o desgaste gerado no cérebro pelas toxinas dessas substâncias, quanto pode agravar um quadro depressivo prévio. Quase sempre essas substâncias funcionam como armadilhas, pois no início podem oferecer calma, relaxamento, euforia, contentamento e fuga da realidade, entretanto em um segundo momento deixam de funcionar e levam o paciente a usar cada vez doses maiores para conseguir mesmo efeito, quase nunca obtido e sim um grande desgaste na função cerebral.

11 – Existem terapias alternativas que podem ser associadas ao transtorno com medicamento?

Sim. Os estudos mostram que o tratamento de mais sucesso vem da associação da psicofarmacologia (remédios) com a psicoterapia. para casos leves e alguns moderados, apenas a psicoterapia pode trazer bons resultados, algo que pode levar tempo de acordo com habilidades do terapeuta e do vínculo com o paciente. Há várias terapias complementares como: musicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, atividades físicas, aromaterapia etc.

12 – A depressão é uma doença crônica?

A depressão pode se tornar crônica em 25% dos casos. Isso quer dizer que a cada 12 pacientes com depressão três delas podem ter o transtorno durante toda a vida mesmo que em uso de remédios. a cronificação dependerá do quão precoce se começa o tratamento e da manutenção dele pelo tempo necessário. Infelizmente, boa parte dos pacientes para o tratamento por conta de, o que contribui muito para que não haja cura.

13 – Há tratamento?

Sim. Quem começa o tratamento deve saber que os benefícios podem não aparecer nas primeiras duas há 4 Semanas. Nessa fase de adaptação em que alguns experimentam os efeitos colaterais dos medicamentos sem notar melhora,Muitos infelizmente desistem do tratamento e não se beneficiam do que viria depois.

14 – Como funciona o tratamento?

O tratamento é dividido em três fases:

Fase aguda: dura 6 a 12 semanas, e tem o objetivo de fazer regredir os sinais e sintomas da doença. Cerca de 70% dos pacientes responde a esta fase. Quando não ocorre resposta o diagnóstico de depressão precisa ser reavaliado e, se houver confirmação, o esquema de tratamento é modificado.  

Fase de continuidade: nela, a medicação deve ser mantida em doses plenas por 4 a 9 meses, contados a partir do desaparecimento dos sintomas, como objetivo de evitar recidiva. A descontinuação prematura aumenta o risco de recidiva em 20% a 40%. 

Fase de manutenção: não tem duração definida. Está indicada apenas nos casos de depressão grave, com alto risco de recidiva ou ideias dominantes de suicídios. deve ser considerada nas pessoas que tiveram três ou mais episódios de depressão, ou dois episódios mais história familiar de depressão recidivante. 

15 – Tem cura?

Sim. Desde que o tratamento seja iniciado de forma rápida e mantido pelo tempo correto, a taxa de cura pode variar de 40 a 75%.

16 – O que acontece se a pessoa não tratar a doença?

Além dos sintomas ficarem cada vez mais intensos e numerosos, a mente do paciente começa a criar e acreditar em uma grande mentira dois pontos a de que a morte é a única solução. Mentira, pois existem várias verdadeiras soluções que podem eliminar o sofrimento e trazer de volta a alegria e o prazer em viver.

17 – O índice de suicídio é alto no país, a depressão seria um dos motivos agravante para isso?

Sim. de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2010, houve 9500 mortes por suicídio no Brasil, uma média de 26 suicídios por dia, o que fez nosso país ocupar o 10º lugar no ranking dos países que mais tiveram suicídio no ano em números absolutos. O Paraná é o décimo estado do Brasil em que mais houve mortes por suicídio, o Rio Grande do Sul é o primeiro. O suicídio predomina em homens na proporção de 3 para quando comparados com as mulheres. A faixa etária em que taxa de suicídio mais cresce é entre os jovens de 15 a 24 anos. É importante, ressaltar que na grande maioria das vezes o suicídio não é uma decisão racional ou filosófica e sim consequência de uma doença. Um estudo com mais de 15 Mil casos de suicídio mostrou que, em 97% dos casos, caberia um diagnóstico de tratamento mental na ocasião do ato final, 5000 mil deles caberiam um diagnóstico de tratamento depressivo.

As pessoas que tentam suicídio querem matar não o corpo e sim a dor que as sufocam, querem deixar de ser um peso para os familiares e acham que todos viveram melhores sem elas. Grande engano, pois os estudos mostram que o risco de suicídio em uma família aumenta em mais de 10 vezes após alguém dessa família cometer suicídio. Não tem alívio algum e sim a morte gerando mais forte.

Fica você leitor, que tem ou conhece alguém que tenha depressão, o dever de procurar ou estimular a procura de um tratamento. Não só fará uma boa ação como poderá salvar uma vida.  


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